Por Paula Frassineth Carvalho Magalhães
Psicose, pobreza e velhice. “Lixos” que se contrapõem ao “luxo” ilusório de normalidade, fartura e juventude, fantasiado pela sociedade.
O filme mostra o invisível da psicose, que se torna visível a partir da fala de Estamira. Fala, condição exigida por ela em troca de se deixar fotografar pelo diretor desta produção cinematográfica, realizada no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, Rio de Janeiro. Assim começa o resgate da história de vida dessa mulher de sessenta e três anos que tem no lixão uma profissão que lhe dá prazer, uma identificação com o resto produtivo e improdutivo e um espaço onde é escutada e respeitada. E, é ali, em meio aos seus constantes delírios que ela se faz sujeito.
Esta (que) Mira, a partir da sua fala, o des-cuido do outro que não sabe cuidar, proteger e economizar as coisas, jogando-as no depósito de restos; a ausência de sentimentos dos trocadilos, aqueles que a enganaram, trocaram-na por outras e a jogaram no lixão. É assim que mira a sua vida: uma seqüência ininterrupta de situações trocadas, contrárias e avessas. Coisas mais intratáveis que os restos com os quais convive e transforma.
Esta mira também o controle que precisou e precisa manter para transbordar o menos possível, tornando-se assim visível aos olhos do Outro.
A loucura foi a forma encontrada por Estamira para inventar uma nova vida, livre, enfim, do sofrimento advindo do Outro.
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